As coisas que ficam entre as frestas

Todo dia a menina comia um pedaço de pão pela manhã. Enquanto mastigava, ela não percebia que algumas migalhas caiam pelo chão. Toda manhã a menina mordia o pão e não percebia que as migalhas iam parar entre as frestas do chão.

Algumas vezes por semana, a empregada que trabalhava na casa da menina preparava milho para o jantar. Enquanto debulhava o milho, ela não percebia que alguns fiapos caiam pelo chão. Alguns dias na semana, a empregada cozinhava o milho e não percebia que os fiapos se enfiavam pelas frestas do chão.

Lá pelas sete e meia da noite, a mãe da menina chegava em casa do trabalho. Enquanto fechava a porta e largava a bolsa no sofá, ela não percebia que alguns grãos de terra se desprendiam do seu sapato e caiam pelo chão. No final do dia, a mãe da menina entrava em casa e não percebia que a terra entrava através das frestas no chão.

Quando não tinha mais nada pra fazer, o irmão mais velho da menina cutucava o nariz. Enquanto arremessava bolinhas de meleca e pensava em coisa nenhuma, ele não percebia que elas caiam pelo chão. Nos momentos de não fazer nada, o irmão da menina enfiava o dedo no nariz e não percebia que a caca ia se esconder por entre as frestas do chão.

Nos dias de briga, a mãe da menina ficava muito brava, o pai da menina ficava muito quieto e a menina chorava muito. Enquanto a mãe gritava, o pai fingia que não estava ali e a menina chorava, eles não percebiam que as palavras, o silêncio e as lágrimas caiam pelo chão. Quando era hora de discussão, eles brigavam e não percebiam que o que não se pode ver com os olhos também se alojava por entre as frestas do chão.

Depois de muito tempo, a menina cresceu e foi estudar bem longe, a mãe e o pai da menina se separaram, o irmão mais velho ficou bem mais velho e foi morar com o pai, a empregada foi demitida e a casa foi posta a venda. Tudo o que um dia tinha ocupado o espaço dos quartos, da sala, da varanda e dos banheiros foi embora. Não sobrou nada, nem mesmo um balde velho ou uma lâmpada queimada. No vazio da casa, o homem que trabalhava como corretor de imóveis podia ouvir os possíveis compradores entrando, comentando, aprovando, estranhando, dando de ombros, saindo e se despedindo.

Foi então que um dia, o homem que trabalhava como corretor na casa vazia, esperando alguma coisa acontecer e um pouco irritado porque estava com fome, percebeu um pequeno brilho vindo do chão. Ele levantou, foi até o lugar onde tinha percebido o brilho, se ajoelhou e viu que aquilo vinha de uma fresta do chão. Ele então pegou um pedaço de papel e se dobrou todo para chegar o mais perto que podia do ponto que reluzia na fresta do chão. Com muito cuidado, ele foi enfiando devagar o papel pela fresta até encostar na parte que brilhava. Continuando a conduzir o papel pela fresta, ele foi tirando o que parecia ser um grão de diamante do chão. Com muita atenção para não deixa-lo cair, ele foi se levantando carregando sua descoberta na mão. Ele andou até uma janela aberta por onde entrava luz para poder examinar seu achado. Nesse momento um vento soprou, e levou o pequeno grão reluzente para dentro da boca do homem que estava aberta de admiração. Ele tentou cuspir, engasgou, tossiu, mas o grão entrou. E o homem caiu no chão.

Risadas, números, cheiros, notícias. Cabelos, mentiras, comida, cadernos. Mosquitos, frases, moedas, comprimidos. Todas as lembranças saíram correndo de dentro das frestas e foram cair dentro do coração do homem caído no chão. E ele pensou, viu, comeu, olhou, sentiu, brincou, não acreditou, …. e passou por todas as coisas que ficam entre as frestas da vida. E o coração do homem se partiu. E o coração do homem se abriu. E o coração do homem arranjou mais espaço para acomodar todas as coisas da vida que ele não tinha vivido antes.