Chicletes

Você. Você que me olha como se eu estivesse no meio de um arsenal de cacos de vidro ou soterrada embaixo de uma plantação de girassóis não deve se lembrar de tudo. Apenas da vida, quando ainda ninguém pensava nela, e de minha dor de ouvido que berrava pelos corredores e não te deixava dormir.

Naquela sala, os pombos envergam suas asas de avestruz.

Você. Você risonho. Que vinha para mim através de mãos, e nós fazíamos ódio e mágoa a noite inteira. Depois, você cuspia seu chiclete no lixo do lado direito da cama.

Sala de pombos. Suas penas silenciosas e compridas param para ver você que entra de repente e vai rodar e bater seus dedos nas penas deles.

Parece que vai ser amanhã que você vai vir me ver. Eu não vou estar, você vai cuspir seus chicletes nas minhas roupas e transar com meu abajur de neon. Lembra? Lembro que eu gostava de me pendurar na corda que estava presa no teto? Lembra? E eu pedia para você subir comigo e fazer amor lá em cima perto de Deus! Mas você acreditava em Buda e dizia que ele estava numa ilha ao norte da África e não no céu.

A sala esvazia. Só há um pombo e você que continua a dançar. Você. Pombo. Estica as suas penas e deixa o vento desfazê-la em treze pétalas.

Sabe aquele dia que você pôs aparelho e veio com os dentes brilhantes me morder o pescoço? Engravidei nesse dia. Você nem sabe. Nem vai saber. E você riu de mim quando voltou e eu tinha pendurado alho no pescoço. Desde esse dia você nunca mais me beijou. Lembra?

A sala de pombos está se fechando. Virou uma janela. Você e o pombo estão presos entre os vidros translúcidos. Suas caras estão amassadas e ficando negras.

E quando eu me separei de você, te dei meu maior presente. Naquela caixa cor de pombo, você abriu e viu nosso filho. Morto. Nasceu e não sei que Buda da África já o matou. Lembra que ele estava molhado? Era saliva minha. E tinha febre? Era o calor da minha vagina. Você apenas me deu sua caixa de chicletes.

Agora o pombo desliza entre os vidros da janela, escapa por aquela brecha e volta a ser branco. Você. Você fica ali, negro, roxo. Com os olhos estalados. Lembrou-se de tudo agora, não é? Eu sei. Agora eu vou embora. Deixarei você preto e amassado como um dos seus chicletes. Na minha roupa de parto.