Facão

Começo é osso suculento
Primeiro cheiro de outro
Coração batendo no ouvido

Trago aqui meu facão
A respiração na garganta
E o olhar furtivo no chão

Tempo que passa é tempo que falta, depois
Se a urgência queima a largada
A demora faz amizade com quem não presta

Veja
Ele não deixa
Ele não quer
Ele não pode querer
Nem deixar
Porque é para confiar
E continuar

Essa agitação da vergonha, tão má companheira
Essa preguiça desleal, tão má companheira
É importante cuidar das amizades

Amanhã
Hoje
Depois
E depois

É pra já
Era pra já ser
Era pra já ter sido
Será?

Peito, peito, que lembra de respirar, arfando para me lembrar
Suspira, que você é meu querido amigo

Será que avisaram, mas não deu para ouvir?
Ou é assim mesmo, com desespero, despreparo, confusão e tumulto?

Não tem volta nem revolta
Segue o passo e dança
Estica o pé e pula
Para de vez em quando para sorrir

Subindo, subindo
Empurrando esses limites todos
Jogando para cima as bolas
E correndo para longe antes que caiam
Quando caírem não serão mais minhas
Ou eu não serei mais delas

Não é como apertar um gatilho
Uma vez só e pá
Nem de metralhadora
É mesmo empurrar pedra montanha acima
Para deixar rolar e ver um vislumbre de vista
Antes de desembestar correndo para ver o estrago

Não tem estrago não
Tem ventilação
Passeios
Com sorte deslumbres
Sem sorte encimesmices

Amanhã
Ontem
Faz diferença?

A cadeia de momentos ainda é pequena
Estou aqui com meu facão engrossando o caldo

Esse facão é uma espada
Que só flameja quando sai da terra
Esse facão também é um barco
Uma videochamada para dentro

Agarro uma árvore aqui
Enfio o pé na lama ali
Arranho a pele

Vontade de parar
É torpor do esquecimento

Vai

Come dessa mesa farta
Parece vazia porque você ainda não acostumou a vista
A vista é vasta
Infinita
Aqui não tem tempo
Aqui é você
É você
Você

Vem

Acostuma-se de novo
Prova essa roupa
E passeia por aí

A cadeia de momentos ainda é pequena
Colecionar momentos
É o melhor passatempo
Vocação ou privilégio

E vem de novo aflição
Porque a água ainda está fria
Os pratos sabor desconhecido
Esquecimento

O caminho é por aqui mesmo
Isso consigo distinguir

Reconheço alguns lugares
Lembro quando não tinha medo
Faço de conta que já estou em casa
Apesar do cheiro estranho

Dou a mão
Ando
Devagar no começo
E parando sem entrar num ritmo

Quanto tempo demora para a visita se sentir à vontade?
O tempo de reconhecer seu reflexo

Hoje está um pouco escuro
Ou será névoa?
As cores se escondem
O silêncio espera

Já tinha esquecido onde estou
Começado a ensaiar um passo de dança
Está tocando música

Vou
Estou
Aqui

Eita saudade

Bom me ver
Bem me faz
Baita saudade

Começo da picada
Apreensão com rugidos
Facão demorando a desembanhar-se

Andei um bocado
Nem tanto
Mas na primeira vez a gente elogia mais

Conversar-se é essencial
Convencer-se não

Já sinto um cheiro de mato
Uma mão me puxando para a ciranda
A alegria do movimento

Mas as cores ainda não deram as caras
A música é mais baixa que o silêncio
E o sono pesa nos dedos

A visita disse que está gostando do lugar
Seria melhor no amanhecer, pensei que ela disse
Vou convidar a visita para me ajudar a arejar a casa

Abrir as janelas
Provar da comida
Regar as plantas
Fazer uma fogueira se escurecer
Cantar uma canção para afastar os tigres

Ela me agradece, com ânimo verdadeiro
É o meu amor e ainda não sei
Ela já sabe, sempre
Não vejo sua roupa
Da voz só o sorriso
Agora os dentes, mostrando que consegui

Até breve, amor