Passa

Um homem carregando um estojo de guitarra passa. Ele olha para trás e para frente repetidas vezes. Não me vê. Sua respiração se acalma. Passa.

A preta olha para mim e pede. O quê? Não sei. Ela desiste e vai cheirar a branca que ficou no chão. Deita. Quando olho ela balança o rabo. Desvio o olho, ela suspira.

Vozes de crianças brincando. Um esguicho. Carros vrum-vrum. Uma porta de carro se abre. Check. Bip faz um carro chamando alguém. Entra no campo da minha visão uma perua escolar. À essa hora?

Cachorros latindo. A preta desce. A branca vem para o meu lado. Suspira e volta para dentro. A preta sobe na grade e cheira. Nada. Cheira o chão, procurando. O quê? Não sei.

Algumas letras na paisagem. Aluga. Pamponet. Entupiu? Uma mulher gorda carregando uma bolsa de couro marrom passa. Um menino com camiseta preta com as mangas cortadas passa. Um casal de namorados… Será? Não vi. A preta continua procurando, agora no degrau da escada. Uma camiseta abóbora passa. Barulho de tijolos? Correntes? Troc Troc.

A branca espreguiça. Vem e senta ao meu lado, ouvindo. A preta na frente. Ouvindo. Passa um boné preto e verde. Beijo a branca, ela lambe. A preta olha e abana o rabo. As três esperam e olham e ouvem e cheiram.

Uma mulher passa em um vestido verde e uma sacola de papel marrom. Duas adolescentes, uma de short xadrez, passam. Não. Param. Oi, blablabla. Voltam e passam. Uma casca cai da árvore. As orelhas se abrem. Crac. Mais outra. Um corredor passa tirando o suor da testa.

As três esperam. Só eu escrevo. Agora não mais.