Tateio

Só sei falar de sentimentos. No máximo de sensações. Não sei nada de tramas inteligentes e surpresas calculadas. A bem da verdade também só sei dizer de mim. Personagens não existem, só eu existo. Estranhamente (ou obviamente), não tomo isso como pretensão. Quem escreve é tanto autor quanto personagem, e aquilo que escreve é a realidade, ainda que não a verdade. Mas falo isso por mim, dos outros, como já disse, duvido a existência. Não traço planos nem destinos. Psicografo-me. Sei menos do que quem lê. Esse consegue ao menos folhear as páginas que ainda estão por vir. Antevejo apenas a próxima frase. Para além dela, o desconhecido. O desejo de parar me ameaça. As palavras aparecem mais como memórias do que imaginação. No meu caso esqueci até o refrão. Tateio no escuro tentando me localizar. Não achei o interruptor, nem tenho certeza de que há um aqui dentro. Escrevo e releio. Releio e corrijo. Corrijo e escrevo. Vou avançando vagarosamente em espiral. Não construo imagens, despejo estados de humor. Esgotando-se o impulso, arreto.